
Climério Ferreira no Balaio de Amor
Publicado Abril 28, 2009 Uncategorized 1 ComentárioTags: Balaio de Amor, Dominguinhos, Elba Ramalho, Riso Cristalino

Para celebrar os 30 anos de carreira, Elba preparou um disco especial: “Balaio de Amor” reúne xotes e baiões, alguns inéditos e muitos já conhecidos da cultura nordestina. Entre os compositores gravados estão Accioly Neto, Chico Bezerra, Maciel Melo, Petrúcio Amorim. As faixas inéditas são composições dos artistas Nando Cordel, Dominguinhos em parceria inédita com o poeta Climério Ferreira.
Em “Balaio de Amor”, Elba retoma uma das principais características de sua carreira: a aposta em talentosos compositores, principalmente da Paraíba e de Pernambuco. Foi a intérprete quem primeiro gravou uma canção de Lenine e ajudou a projetar com registros antológicos Geraldo Azevedo, Belchior, Chico César, Lula Queiroga e outros. Produzido pelo compositor e músico Cezinha, o CD reúne uma boa safra de canções recentes, com belas melodias e letras poéticas, compostas por artistas que dificilmente rompem a barreira geográfica nordestina.
A cantora privilegiou selecionar canções que soassem praticamente inéditas nas demais regiões do país. “Algumas destas músicas são conhecidas pelos nordestinos e o povo acompanha as letras. Sempre fiz bem este trânsito do Nordeste com os outros cantos brasileiros, em meio a essa geografia imensa”.
De compositores já consagrados no eixo Centro-Sul do país, apenas duas faixas de Dominguinhos e uma de Nando Cordel. Do sanfoneiro, com quem já dividiu um álbum, registrou “Riso Cristalino”, parceria com Climério Ferreira, em que o compositor leva o acordeon com Cezinha e divide, com seu timbre grave, o vocal com Elba, e “Ilusão Nada Demais”, esta com Fausto Nilo, que conta com o sax soprano indefectível de Leo Gandelman.
A vida
(Mário Quintana)
A vida são deveres que nós trouxemos para fazer em casa
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira…
Quando se vê, já terminou o ano…
Quando se vê, passaram-se 50 anos!
Agora, é tarde demais para ser reprovado…
Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente
e iria jogando, pelo caminho,
a casca dourada inútil das horas
Dessa forma eu digo:
não deixe de fazer algo que gosta,
devido à falta de tempo.
A única falta que terá, será desse tempo
Que infelizmente… não voltará mais.

Impossível ouvir a famosa canção de Milton Nascimento e Fernando Brandt e não pensar imediatamente em dona Maria Luíza dos Santos Silva, uma sertaneja que já viveu muitas vidas, todas elas tão severinas que, para driblar a morte, teve de reinventar-se como Maria da Inglaterra, que “é o som, é a cor, é o suor/ é a dose mais forte e lenta/ de uma gente que ri quando deve chorar/ e não vive, apenas agüenta”.
Maria da Inglaterra acaba de perder metade do pouco que a vida lhe deu: o poeta Otacílio, amigo, amante, parceiro e sua “memória”. Era ele quem decorava e escrevia as canções da rainha.Teria, portanto, todos os motivos para desistir de vez e cair no esquecimento. Mas Maria que se fez artista depois uma visão, tem um anjo que a protege, um anjo peralta, vadio e piadista, que atende pelo nome de Zé Dantas. Foi dele a iniciativa de gravar o CD “O Peru Rodou”, sonho que dona Maria perseguiu por quase 30 anos. E agora, quando o manto da noite ameaçava encobri-la de vez, Dantas fê-la ressurgir das cinzas e brindar-nos com o luminoso “Alegria de Viver”, um hino à vida.
Cercada por um time de craques do naipe de Geraldo Brito, Adelson Viana, Vaguinho, Anderson, Jeová, Gonzaga Lu, Jerlane Costa e Paulo Dantas e com as participações de Lázaro do Piauí e João Cláudio Moreno, Maria da Inglaterra sacode a poeira e dá a volta por cima. Está viva, inteira e vibrante como nunca. Falta-me autoridade para julgar as qualidades deste CD, mas não a sensibilidade para captar a beleza de “Dei uma volta no mundo” e “Pancada desta ponte”, para citar apenas dois exemplos. Longa vida e muito sucesso à “rainha das canções do Piauí”. Ela fez por merecer
por Cinéas Santos

DESENCARNAÇÃO
Tudo tem o seu porém
Ou como diz Woody Allen
A eternidade só fica ruim
Quando vai chegando ao fim
chorão / 79
Brasília é uma cidade
sem saudade
Brasília é uma cidade
cheia de saudades
Brasília é uma cidade?
pois quando lembrar de mim
pensa em mim numa cidade assim
sem tradição
mano velho
dez horas por dia
ele esmurra as águas
esquecido do próprio nome
e nem treme a fala
(na beira do Parnaíba
entre surrões e cofos
suspira e tenta sonhar
um resto de homem)
nas águas sujas do ex-rio
o vaporzinho de cores berrantes
cruza a lancha moderna e veloz
mano velho, setenta anos,
vê no progresso uma língua estranha
à sua fala — e cala.
esquadrão da morte
o supermercado dispara
a televisão dispara
o político dispara
a construção civil dispara
o imposto dispara
a educação dispara
o salário dispara
o patrão dispara
a religião dispara
o transporte dispara
o povo morre
crivado de bala
na praça pública
eis algumas raridades que publiquei, na década de 70, na coletânea “PO(rr)ETAS, de Brasília:
sem versos
não há motivo algum
pra que te faça versos
amo em ti:
teu corpo
e a alma nele contida
teus cabelos
em desalinho sobre a testa
as mil faces
da tua cara a cada carícia
teu andar de animal em extinção
ante o olhar atento do caçador
o ódio e o amor
que nos separa
une dentro da noite
condenação
perdão:
estou predestinado a ser feliz.
que fazer?
não sei torturar
nem quero o poder
a honra não me tenta
nem o sucesso almejo
menina,
nem teus apelos domésticos
nem teu regaço em brasa
detêm em mim esta poesia
sou feliz,
como o pássaro da anistia,
sobrevoando o céu tumultuado
executivos, heróis, soldados,
fanáticos, empresários, proprietários,
classe média em geral,
eu vos declaro a minha condenação:
sou cavalo do meu sonho

ouça bastante mpb (no rádio, nos carros, nas casas, nos apartamentos, na televisão); que a poesia penetre os corações (a poesia de mariana botelho, a de graça vilhena, a de keula araújo, a de salgado maranhão, a de joão ayres, a de lelê, a minha (rs), a de nicolas behr, a de muitos outros); leia as crônicas de rogério newton; ouça fernanda takai, ceumar, clodo ferreira, dominguinhos, tom zé, silvério pessoa e ednardo sem parar; devore os livros de thomas nagel, de andré comte-sponville, de edgar morin (”amor/poesia/sabedoria”, por exemplo); e não se deixe de cineas santos, de assai campelo, de frô, de celso bê, de celso adolfo, nileide e demais iguais, que tornam imensa a existência de um vivente; e não esqueça os versos de chico alvim; nunca se ausente de pensar em mim – de mim que estou ali no berlim sorvendo uma gelada, esperando aloísio brandão; de mim que me sinto feliz e guardado em carinho por helô, matias, julia, luisa, débora e daniela.

SONETO (VIII)
Recordo ainda …e nada mais importa…
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre ,de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta…
Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança…
Estrada afora após segui…Mas, ai,
Embora idade e senso eu aparente,
Não vos iluda o velho que aqui vai:
Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino…acreditai…
Que envelheceu, um dia, de repente!…
(Mário Quintana – Rua dos Cataventos)
Climério,
Li todo seu livro e pude comprovar o que eu já sabia: você é um grande poeta. Gostei de todos os poemas, mas alguns me cativaram mais. Assim me emocionei com Mercado Velho, onde “Deus escrevia o certo e o errado/ Nas retorcidas linhas dos punhos das redes”. Adorei esses versos! O mesmo aconteceu com todos os poemas que tematizam a vida simples e bela do interior. Não tive essa riqueza, minha poesia é tristemente urbana, se há um poema fora desse espaço, tenho que apelar para a imaginação. Só agora pude ter um pedacinho de terra, um sítio, onde passa um riacho e é repleto de babaçu. Imagine minha felicidade. Meu “rio solitário” tem agora onde desaguar.
Quando li Bicicleta de pneu fino, lembrei-me de que também tenho um poema sobre bicicleta, que transcrevo para você apreciar:
Monark
aquele menino
e sua monark
um craque
andava soltando as mãos
só com a roda traseira
um pé na sela
e os olhos em mim
foram as primeiras lições
sobre os perigos do amor
Graça Vilhena