2010 é tempo de:

tempo de reler zen e a arte da manutenção das motocicletas, de robert m. pirsig. tempo de esperar o volume 2 de então, foi assim, de ruy godinho (sobre como foram feitas algumas das mais belas canções da nossa mpb). tempo de ver/ouvir o dvd de dominguinhos ao vivo (trinta e sete músicas do melhor forró do nordeste). tempo de ler deus, um delírio, de richard dawkins. tempo de visitar o myspace de antonio celso duarte, o bê. tempo de ler ouvindo vozes, de edmar oliveira. tempo de ler a poesia de noélia. tempo de reler baú de espantos, de mário quintana. tempo de dar outra espiada em ensaio sobre o homem, de ernst cassirer. tempo de ouvir cauby cantando roberto. tempo de curtir fernanda takai cantando insensatez. tempo de elba recriando plantio de amor. tempo de revisitar os sambas de eduardo gudim. tempo de ouvir paulo césar pinheiro. tempo de esperar o cd novo de silvério pessoa. tempo de tomar cerveja empoada no bar do zé do santo, em regeneração, ouvindo maria bethânia. tempo de comer o bode do raimundo no berlim, falando bem da vida e jogando conversa fora. tempo de ligar pro ednardo, sondando parcerias. tempo de rever assai campelo no bar do clube dos diários, ouvindo waldik soriano cantar sinatra. é tempo de ter tempo. que venha 2010, que eu quero é mais – e é disco que eu gosto. viva a bela parceria de clodo com evaldo gouveia.

um grande abraço do climério

A CAPTURA DA PAISAGEM

100305_boligan

A CAPTURA DA PAISAGEM  

Enquadro a paisagem com os dedos
Como fazem os cineastas antes da filmagem
Vejo que a paisagem que vejo não é
Mas está filtrada pelos sentimentos

Na sua neutralidade natural transfigura-se
Em triste, feia e bela sendo a mesma
Sua nua visão só denuncia minha dor
Ou minha alegria como algo irreal
Ante as coisas que são e o passar do tempo

Nada congela o que sinto ao enquadrá-la
Sua realidade escapa sorrateiramente ao olhar
E continua sendo o que é infinitamente

Climério Ferreira

BUSQUE A POESIA

BUSQUE A POESIA

Contemplar com prazer
Ser expectador da vida e das coisas
Eis uma das muitas definições do gosto
Dá até para saber que a vida às vezes é de morte
Faça então uma canção
Um cantochão, um canto-céu
Opere uma ópera em silêncio
Deixe que a tristeza se arraste pelas ruas das metrópoles
Recolha-se às sombras dos edifícios
Busque a poesia onde não há

 Contemplar com prazer
Ser inocente da vida e das coisas
Eis a leveza de uma asa em pleno vôo
A vida – no tempo – é mais que um talho, um corte
Faça um verso então
Um verso preso, um verso livre
Grite aquele grito em silêncio
Deixe que a alegria povoe os povoados
Recolha-se ao sol desses desertos
Busque a poesia onde haverá

 

(Climério Ferreira)

+ duas quadrinhas

BODE BIKE

O homem leva o almoço
Para um passeio na ponte
O pré-churrasco em alvoroço
Se encanta com o horizonte

(Climério Ferreira)

sunsetsailing

 

A PONTE DO DESEJO

O querer constrói um arco
Sobre o abismo do nada
Onde passeia de barco
Uma paixão inventada

(Climério Ferreira)

Duas Quadrinhas

VERSO AFLITO

 Meu verso solta o grito
Que a fala ousa esconder
É que meu verso é aflito
Como um verso deve ser

olhares

HAJA VISTA

 Ávida de olhares
A pétala da flor
Espalha pelos ares
Cheiro e cor

(Climério Ferreira)

MARIA FUMAÇA

sjdr1

A Maria Fumaça
Avança vagarosamente
Sábia e zen
Para São João Del Rei

A paisagem não tem pressa
E passa em câmara lenta na janela
Pontilhando a visão de vacas leiteiras
Que dormem na beira dos córregos

 Surgem os primeiros casarios
Testemunhos envelhecidos do tempo
Alertando nosso sonolento olhar
Para os telhados impregnados de história

 São João Del Rei se impõe
Imponente e bela, brilhando ao longe
Com alguns edifícios modernos
Denunciando sua inevitável transformação

A brisa que sopra da janela
Tão suave quanto a marcha do velho trem
Deve ser a mesma que acariciou
Anos atrás a face dos inconfidentes

(Climério Ferreira)

Deselegância

deseleg

Climério Ferreira no Balaio de Amor

capa_frente_balaio_edit

Para celebrar os 30 anos de carreira, Elba preparou um disco especial: “Balaio de Amor” reúne xotes e baiões, alguns inéditos e muitos já conhecidos da cultura nordestina. Entre os compositores gravados estão Accioly Neto, Chico Bezerra, Maciel Melo, Petrúcio Amorim. As faixas inéditas são composições dos artistas Nando Cordel, Dominguinhos em parceria inédita com o poeta Climério Ferreira.

Em “Balaio de Amor”, Elba retoma uma das principais características de sua carreira: a aposta em talentosos compositores, principalmente da Paraíba e de Pernambuco. Foi a intérprete quem primeiro gravou uma canção de Lenine e ajudou a projetar com registros antológicos Geraldo Azevedo, Belchior, Chico César, Lula Queiroga e outros. Produzido pelo compositor e músico Cezinha, o CD reúne uma boa safra de canções recentes, com belas melodias e letras poéticas, compostas por artistas que dificilmente rompem a barreira geográfica nordestina.

 A cantora privilegiou selecionar canções que soassem praticamente inéditas nas demais regiões do país. “Algumas destas músicas são conhecidas pelos nordestinos e o povo acompanha as letras. Sempre fiz bem este trânsito do Nordeste com os outros cantos brasileiros, em meio a essa geografia imensa”.

  De compositores já consagrados no eixo Centro-Sul do país, apenas duas faixas de Dominguinhos e uma de Nando Cordel. Do sanfoneiro, com quem já dividiu um álbum, registrou “Riso Cristalino”, parceria com Climério Ferreira, em que o compositor leva o acordeon com Cezinha e divide, com seu timbre grave, o vocal com Elba, e “Ilusão Nada Demais”, esta com Fausto Nilo, que conta com o sax soprano indefectível de Leo Gandelman.

poesia dos outros

A vida
(Mário Quintana)

A vida são deveres que nós trouxemos para fazer em casa

Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira…
Quando se vê, já terminou o ano…
Quando se vê, passaram-se 50 anos!

Agora, é tarde demais para ser reprovado…

Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente
e iria jogando, pelo caminho,
a casca dourada inútil das horas

Dessa forma eu digo:
não deixe de fazer algo que gosta,
devido à falta de tempo.

A única falta que terá, será desse tempo
Que infelizmente… não voltará mais.

MARIA MARIA

mingl1

Impossível ouvir a famosa canção de Milton Nascimento e Fernando Brandt e não pensar imediatamente em dona Maria Luíza dos Santos Silva, uma sertaneja que já viveu muitas vidas, todas elas tão severinas que, para driblar a morte, teve de reinventar-se como Maria da Inglaterra, que “é o som, é a cor, é o suor/ é a dose mais forte e lenta/ de uma gente que ri quando deve chorar/ e não vive, apenas agüenta”.

Maria da Inglaterra acaba de perder metade do pouco que a vida lhe deu: o poeta Otacílio, amigo, amante, parceiro e sua “memória”. Era ele quem decorava e escrevia as canções da rainha.Teria, portanto, todos os motivos para desistir de vez e cair no esquecimento. Mas Maria que se fez artista depois uma visão, tem um anjo que a protege, um anjo peralta, vadio e piadista, que atende pelo nome de Zé Dantas. Foi dele a iniciativa de gravar o CD “O Peru Rodou”, sonho que dona Maria perseguiu por quase 30 anos. E agora, quando o manto da noite ameaçava encobri-la de vez, Dantas fê-la ressurgir das cinzas e brindar-nos com o luminoso “Alegria de Viver”, um hino à vida.

Cercada por um time de craques do naipe de Geraldo Brito, Adelson Viana, Vaguinho, Anderson, Jeová, Gonzaga Lu, Jerlane Costa e Paulo Dantas e com as participações de Lázaro do Piauí e João Cláudio Moreno, Maria da Inglaterra sacode a poeira e dá a volta por cima. Está viva, inteira e vibrante como nunca. Falta-me autoridade para julgar as qualidades deste CD, mas não a sensibilidade para captar a beleza de “Dei uma volta no mundo” e “Pancada desta ponte”, para citar apenas dois exemplos. Longa vida e muito sucesso à “rainha das canções do Piauí”. Ela fez por merecer

por Cinéas Santos

Próxima Página »