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Outras raridades de Brasília

chorão / 79

Brasília é uma cidade
sem saudade
Brasília é uma cidade
cheia de saudades
Brasília é uma cidade?
pois quando lembrar de mim
pensa em mim numa cidade assim
sem tradição

mano velho

dez horas por dia
ele esmurra as águas
esquecido do próprio nome
e nem treme a fala
(na beira do Parnaíba
entre surrões e cofos
suspira e tenta sonhar
um resto de homem)
nas águas sujas do ex-rio
o vaporzinho de cores berrantes
cruza a lancha moderna e veloz
mano velho, setenta anos,
vê no progresso uma língua estranha
à sua fala — e cala.

esquadrão da morte

o supermercado dispara
a televisão dispara
o político dispara
a construção civil dispara
o imposto dispara
a educação dispara
o salário dispara
o patrão dispara
a religião dispara
o transporte dispara
o povo morre
crivado de bala
na praça pública

sem versos

eis algumas raridades que publiquei, na década de 70, na coletânea “PO(rr)ETAS, de Brasília:

             

            sem versos

não há motivo algum
pra que te faça versos
amo em ti:
teu corpo
e a alma nele contida
teus cabelos
em desalinho sobre a testa
as mil faces
da tua cara a cada carícia
teu andar de animal em extinção
ante o olhar atento do caçador
o ódio e o amor
que nos separa
une dentro da noite 
 

 condenação

 perdão:
estou predestinado a ser feliz.
que fazer?
não sei torturar
nem quero o poder
a honra não me tenta
nem o sucesso almejo
menina,
nem teus apelos domésticos
nem teu regaço em brasa
detêm em mim esta poesia
sou feliz,
como o pássaro da anistia,
sobrevoando o céu tumultuado
executivos, heróis, soldados,
fanáticos, empresários, proprietários,
classe média em geral,
eu vos declaro a minha condenação:
sou cavalo do meu sonho 

 

 

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ouça bastante mpb (no rádio, nos carros, nas casas, nos apartamentos, na televisão); que a poesia penetre os corações (a poesia de mariana botelho, a de graça vilhena, a de keula araújo, a de salgado maranhão, a de joão ayres, a de lelê, a minha (rs), a de nicolas behr,  a de muitos outros); leia as crônicas de rogério newton; ouça fernanda takai, ceumar, clodo ferreira, dominguinhos, tom zé, silvério pessoa e ednardo sem parar; devore os livros de thomas nagel, de andré comte-sponville, de edgar morin (“amor/poesia/sabedoria”, por exemplo); e não se deixe de cineas santos, de assai campelo, de frô, de celso bê, de celso adolfo, nileide e demais iguais, que tornam imensa a existência de um vivente; e não esqueça os versos de chico alvim; nunca se ausente de pensar em mim – de mim que estou ali no berlim sorvendo uma gelada, esperando aloísio brandão; de mim que me sinto feliz e guardado em carinho por helô, matias, julia, luisa, débora e daniela.

 

SONETO


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SONETO (VIII)
 
 
Recordo ainda …e nada mais importa…
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre ,de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta…
  
Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança…
 
Estrada afora após segui…Mas, ai,
Embora idade e senso eu aparente,
Não vos iluda o velho que aqui vai:
 
Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino…acreditai…
Que envelheceu, um dia, de repente!…
 
 
(Mário Quintana – Rua dos Cataventos)

 

GRAÇA VILHENA SOBRE MEMORIAL DE MIM

 

Climério,

 Li todo seu livro e pude comprovar o que eu já sabia: você é um grande poeta. Gostei de todos os poemas, mas alguns me cativaram mais. Assim me emocionei com Mercado Velho, onde “Deus escrevia o certo e o errado/ Nas retorcidas linhas dos punhos das redes”. Adorei esses versos! O mesmo aconteceu com todos os poemas que tematizam a vida simples e bela do interior. Não tive essa riqueza, minha poesia é tristemente urbana, se há um poema fora desse espaço, tenho que apelar para a imaginação. Só agora pude ter um pedacinho de terra, um sítio, onde passa um riacho e é repleto de babaçu. Imagine minha felicidade. Meu “rio solitário” tem agora onde desaguar.

 Quando li Bicicleta de pneu fino, lembrei-me de que também tenho um poema sobre bicicleta, que transcrevo para você apreciar:

 

Monark

 

 aquele menino

e sua monark

um craque

 

andava soltando as mãos

só com a roda traseira

um pé na sela

e os olhos em mim

 

foram as primeiras lições

sobre os perigos do amor

 

Graça Vilhena

Olhe onde pisa

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A janela da poesia

por Bráulio Tavares

 

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tela-criação de Maluda

 

 

Ferreira Gullar tem uma definição irretocável para uma das grandes angústias na vida de um poeta. Diz ele: “O grande problema do poeta é convencer a mulher de que, quando está debruçado na janela, fumando, olhando lá pra fora, ele está trabalhando”. E não é mesmo? A mulher de um cara como esse não precisa ser fã de Chico Buarque para cantarolar “Vai trabalhar, vagabundo” enquanto espana os móveis. Homem debruçado na janela só pode estar espiando os decotes que passam. E eu vos direi, no entanto, que é em momentos como esse que brotam as grandes idéias os grandes versos, as grandes inspirações.

O trabalho criativo é imprevisível. Maiakóvski, no seu essencial livrinho Como fazer versos, afirma, justificando seu hábito de anotar todas as idéias que lhe vêm à mente: “Gasto todo o meu tempo com estas preparações. Passo assim 10 a 18 horas por dia e estou quase sempre murmurando algo. É com essa concentração que se explica a famigerada distração dos poetas. O trabalho com estas preparações vai acompanhado em mim de semelhante tensão que em noventa por centro dos casos sei até o lugar em que, no decorrer de quinze anos de trabalho, vieram-me e receberam sua forma definitiva tais ou quais rimas, aliterações, imagens, etc.”

É exatamente assim que sucede comigo, e com muitos outros, tenho certeza. Comparando com o mundo informático, eu diria que a poesia é uma janela do Windows que nunca se desliga; fica minimizada num cantinho da mente, mas pronta para ser aberta, e o trabalho retomado, ao menor estímulo. Mesmo quando estamos conversando, trabalhando noutra coisa, comendo, namorando, aquela janelinha está ativada e pronta. Daí a famosa frase de Fernando Pessoa: “E quando estou pensando, estou sempre pensando noutra coisa”. A outra coisa é a janela da poesia.

Não devemos achar que o trabalho criativo é puramente mental, porque idéias que não são escritas são arquivos que não são salvos: basta o computador ser desligado (ou seja, uma noite de sono) para que tudo se evapore. Não adianta ter uma idéia genial: é preciso colocá-la no papel, brigar com ela, batalhar, cortar, reescrever, dar polimento, e isto às vezes leva anos. Tem poemas que eu comecei a escrever há mais de vinte anos, ainda não prestam, mas podem prestar um dia. Idéias novas surgem nos momentos mais inesperados. E o poeta (a mente criativa em geral; pode ser também um matemático, um cientista) é como um pára-raios. Tem que estar em alerta permanente, vigília permanente, porque nunca sabe quando os raios vão cair, só sabe que eles acabam caindo. Um poeta debruçado na janela é um pára-raios. Ele está trabalhando, sim, madame. Um pára-raios não trabalha apenas no momento em que recebe uma descarga, assim como um policial não trabalha apenas no momento em que evita um crime, ou um bombeiro não trabalha apenas quando escorrega por aquele poste vertical e entra no caminhão. Um pára-raios trabalha 24 horas por dia, e acha pouco.

Bráulio Tavares é escritor, compositor, estudou cinema na Escola Superior de Cinema da Universidade Católica de Minas Gerais, é Pesquisador de literatura fantástica, compilou a primeira bibliografia do gênero na literatura brasileira, o Fantastic, Fantasy and Science Fiction Literature Catalog (Fundação Biblioteca Nacional, Rio, 1992). Publicou A máquina voadora, em 1994 e A espinha dorsal da memória, em 1996. Tem coluna de cultura diária

no Jornal da Paraíba. É parceiro de Lenine.

A FÉ E A MONTANHA

 

 

Que coisa estranha

Por mais que eu acredite

A fé não remove minhas montanhas

 

 

(Climério Ferreira)

 

O ESCAFRANDO E A BORBOLETA

 

 

A vida

Vista do estado terminal

É um exercício absolutamente banal

 

 

(Climério Ferreira)

ERRO E ACERTO


Não creia em mim

Nada faço de certo

Mesmo quando acerto no fim

 

 

(Climério Ferreira)

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