Archive for the 'Crônica' Category

O inverso

A juventude
Pode ser algo que chega com a maturidade

(Climério Ferreira)

james dean edit mywebface by celso duarte

DESNASCER
 
O mundo vai ficando diferente
A arquitetura vai se modificando
O amigo vai ficando ausente
O tempo ontem se distanciando
 
O esquecimento vai se impondo
A lembrança do passado se faz presente
Caras e nomes vão se misturando
É a gente desnascendo lentamente
 
(Climério Ferreira)
 
A PRESSA VÃ DA VIDA FÚTIL
As crateras do tempo engolem horas
Os vulcões dos séculos expelem anos
Não sobra espaço para as demoras
Nem a calma necessária para os planos
 
Nesse turbilhão de minutos aflitos
Montanhas de desejos se evaporam
Os dias destroçam santos e mitos
E os ideais necessários desmoronam
(Climério Ferreira)

2010 é tempo de:

tempo de reler zen e a arte da manutenção das motocicletas, de robert m. pirsig. tempo de esperar o volume 2 de então, foi assim, de ruy godinho (sobre como foram feitas algumas das mais belas canções da nossa mpb). tempo de ver/ouvir o dvd de dominguinhos ao vivo (trinta e sete músicas do melhor forró do nordeste). tempo de ler deus, um delírio, de richard dawkins. tempo de visitar o myspace de antonio celso duarte, o bê. tempo de ler ouvindo vozes, de edmar oliveira. tempo de ler a poesia de noélia. tempo de reler baú de espantos, de mário quintana. tempo de dar outra espiada em ensaio sobre o homem, de ernst cassirer. tempo de ouvir cauby cantando roberto. tempo de curtir fernanda takai cantando insensatez. tempo de elba recriando plantio de amor. tempo de revisitar os sambas de eduardo gudim. tempo de ouvir paulo césar pinheiro. tempo de esperar o cd novo de silvério pessoa. tempo de tomar cerveja empoada no bar do zé do santo, em regeneração, ouvindo maria bethânia. tempo de comer o bode do raimundo no berlim, falando bem da vida e jogando conversa fora. tempo de ligar pro ednardo, sondando parcerias. tempo de rever assai campelo no bar do clube dos diários, ouvindo waldik soriano cantar sinatra. é tempo de ter tempo. que venha 2010, que eu quero é mais – e é disco que eu gosto. viva a bela parceria de clodo com evaldo gouveia.

um grande abraço do climério

Woody Allen

manhattan

DESENCARNAÇÃO
 
Tudo tem o seu porém
Ou como diz Woody Allen
A eternidade só fica ruim
Quando vai chegando ao fim

 
(Climério Ferreira)
 

anoquevemsejafeliz

 promised-land221


ouça bastante mpb (no rádio, nos carros, nas casas, nos apartamentos, na televisão); que a poesia penetre os corações (a poesia de mariana botelho, a de graça vilhena, a de keula araújo, a de salgado maranhão, a de joão ayres, a de lelê, a minha (rs), a de nicolas behr,  a de muitos outros); leia as crônicas de rogério newton; ouça fernanda takai, ceumar, clodo ferreira, dominguinhos, tom zé, silvério pessoa e ednardo sem parar; devore os livros de thomas nagel, de andré comte-sponville, de edgar morin (“amor/poesia/sabedoria”, por exemplo); e não se deixe de cineas santos, de assai campelo, de frô, de celso bê, de celso adolfo, nileide e demais iguais, que tornam imensa a existência de um vivente; e não esqueça os versos de chico alvim; nunca se ausente de pensar em mim – de mim que estou ali no berlim sorvendo uma gelada, esperando aloísio brandão; de mim que me sinto feliz e guardado em carinho por helô, matias, julia, luisa, débora e daniela.

 

A janela da poesia

por Bráulio Tavares

 

1973_janelas
tela-criação de Maluda

 

 

Ferreira Gullar tem uma definição irretocável para uma das grandes angústias na vida de um poeta. Diz ele: “O grande problema do poeta é convencer a mulher de que, quando está debruçado na janela, fumando, olhando lá pra fora, ele está trabalhando”. E não é mesmo? A mulher de um cara como esse não precisa ser fã de Chico Buarque para cantarolar “Vai trabalhar, vagabundo” enquanto espana os móveis. Homem debruçado na janela só pode estar espiando os decotes que passam. E eu vos direi, no entanto, que é em momentos como esse que brotam as grandes idéias os grandes versos, as grandes inspirações.

O trabalho criativo é imprevisível. Maiakóvski, no seu essencial livrinho Como fazer versos, afirma, justificando seu hábito de anotar todas as idéias que lhe vêm à mente: “Gasto todo o meu tempo com estas preparações. Passo assim 10 a 18 horas por dia e estou quase sempre murmurando algo. É com essa concentração que se explica a famigerada distração dos poetas. O trabalho com estas preparações vai acompanhado em mim de semelhante tensão que em noventa por centro dos casos sei até o lugar em que, no decorrer de quinze anos de trabalho, vieram-me e receberam sua forma definitiva tais ou quais rimas, aliterações, imagens, etc.”

É exatamente assim que sucede comigo, e com muitos outros, tenho certeza. Comparando com o mundo informático, eu diria que a poesia é uma janela do Windows que nunca se desliga; fica minimizada num cantinho da mente, mas pronta para ser aberta, e o trabalho retomado, ao menor estímulo. Mesmo quando estamos conversando, trabalhando noutra coisa, comendo, namorando, aquela janelinha está ativada e pronta. Daí a famosa frase de Fernando Pessoa: “E quando estou pensando, estou sempre pensando noutra coisa”. A outra coisa é a janela da poesia.

Não devemos achar que o trabalho criativo é puramente mental, porque idéias que não são escritas são arquivos que não são salvos: basta o computador ser desligado (ou seja, uma noite de sono) para que tudo se evapore. Não adianta ter uma idéia genial: é preciso colocá-la no papel, brigar com ela, batalhar, cortar, reescrever, dar polimento, e isto às vezes leva anos. Tem poemas que eu comecei a escrever há mais de vinte anos, ainda não prestam, mas podem prestar um dia. Idéias novas surgem nos momentos mais inesperados. E o poeta (a mente criativa em geral; pode ser também um matemático, um cientista) é como um pára-raios. Tem que estar em alerta permanente, vigília permanente, porque nunca sabe quando os raios vão cair, só sabe que eles acabam caindo. Um poeta debruçado na janela é um pára-raios. Ele está trabalhando, sim, madame. Um pára-raios não trabalha apenas no momento em que recebe uma descarga, assim como um policial não trabalha apenas no momento em que evita um crime, ou um bombeiro não trabalha apenas quando escorrega por aquele poste vertical e entra no caminhão. Um pára-raios trabalha 24 horas por dia, e acha pouco.

Bráulio Tavares é escritor, compositor, estudou cinema na Escola Superior de Cinema da Universidade Católica de Minas Gerais, é Pesquisador de literatura fantástica, compilou a primeira bibliografia do gênero na literatura brasileira, o Fantastic, Fantasy and Science Fiction Literature Catalog (Fundação Biblioteca Nacional, Rio, 1992). Publicou A máquina voadora, em 1994 e A espinha dorsal da memória, em 1996. Tem coluna de cultura diária

no Jornal da Paraíba. É parceiro de Lenine.

Mistérios do Amor

 

Comigo já foi assim:

O amor tinha tantos mistérios

Que se escondia de mim

 

 

(Climério Ferreira)

REFLEXÕES EXTEMPORÂNEAS DE UM QUASE-CANDANGO

 

…todos os sonhos de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer naufragaram: a cidade que não deveria ter favelas, engarrafamentos, mendigos, violência e outras mazelas que infernizam as grandes cidades brasileiras, tem tudo isso e muito mais.

 

 
 foto Iano Andrade

 por Cineas Santos

Atendendo a convite do mestre M. Paulo Nunes, na semana passada, passei uns três dias em Brasília, exercitando a minha reconhecida e proclamada capacidade de falar sandices. Nisso, modéstia à parte, sou imbatível. Nessa época do ano, Brasília é dos lugares mais áridos do Planeta. É tudo secura e desolação. O pó vermelho transforma a “Capital da Esperança” numa monótona aquarela ferrugem. É certo que dois ou três ipês amarelos, raquíticos e desidratados, brindaram-me com uma frugal ração de beleza. Mas a beleza, já afirmava Stendhal, “é apenas a promessa da felicidade”. Nada além.

      Sozinho num quarto de hotel, comecei a lembrar-me dos versos que abrem Os Signos & as Siglas, o mais triste dos livros de Dobal: “Esta cidade sem poeira de vida/ se fecha. Se prende. Se tranca/ em mil unidades de desespero/ Esta cidade/ desolada isolada/ ilha de poeira morta/ subverte o silêncio/ submerge os soluços”. Não resisti à tentação de agradecer a seu Liberato o fato de ter impedido que eu me tornasse um candango. Explico.

      Em 1958, não caiu uma gota de chuva no sertão do Caracol. No rastro de outros sertanejos, meu pai encarapitou-se num pau-de-arara e rumou para Brasília. Estava muito velho para sair pelo mundo à procura de trabalho. Mas naquele imenso canteiro de obras, nem os inválidos – e não era o caso – ficavam desempregados. Duas semanas depois, meu velho deu notícias: “estou fichado na Pacheco Fernandes”, de triste memória. Na verdade, estava cavando valas para enterrar ilusões. Imediatamente, d. Purcina começou a arrumar os teréns para mudar-se, de mala e cuia, para Brasília. Vislumbrava, na aridez do cerrado, a possibilidade de “educar os filhos”, sua mais constante obsessão e, de quebra, “ganhar um dinheirinho” vendendo de-comer aos cassacos. A velha tinha sonhos, ambições. O que ela não poderia imaginar é que, oito meses depois, seu Liberato, “ouvindo o ronco do trovão”, como a asa branca da canção, voltou para o seu roçado e, de lá, só sairia para o cemitério. Quanto a mim, em vez do cerrado, migrei para a chapada de onde não sairei nem para Pasárgada.

      Se não estou enganado, todos os sonhos de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer naufragaram: a cidade que não deveria ter favelas, engarrafamentos, mendigos, violência e outras mazelas que infernizam as grandes cidades brasileiras, tem tudo isso e muito mais. Em frente ao Ministério da Cultura, para citar apenas um exemplo, um sem-nada “mora” numa brasília velha, rota e enferrujada.

      Confesso que, no segundo dia de minha estada na capital da República, eu estava a um passo do desespero. Náufrago naquela imensa ausência de mar, eu não via a hora de voltar para a aldeia. De repente, como que trazidos por um vento bom, me aparecem: Edmilson Caminha, Ana Maria, Climério Ferreira, Paulo José Cunha, Andrea, Lourdes Lima, Afonso Ligório, Guido Heleno e mais um punhado de amigos queridos. E o que era aridez se fez brandura, acolhimento. Se nada mais tivesse acontecido, reencontrá-los já teria justificado a viagem. Ao despedir-me de Brasília na manhã de sábado, senti (por que não confessar?) uma pontinha de saudade. Impossível não concordar com o prof. Wall Ferraz: “A cidade é o povo”, o mais é paisagem, mesmo que seja a árida paisagem do Planalto Central, onde cintilam as esculturas monumentais de Niemeyer.

 Cineas Santos


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