Archive for the 'Poesia e Música' Category

Entrevista com Climério Ferreira

Entrevista com Climério Ferreira
Vivaldo Simão para o jornal Interativo

No artigo Vozes ocultas do Piauí, publicado na primeira edição do nosso jornal Interativo, falei de grandes compositores piauiense atualmente esquecidos ou ignorados pelo grande público, dentre eles o trio Clésio, Climério e Clodo, cujas canções Revelação, Conflito e Cebola cortada tiveram grande repercussão nacional na voz de Fagner.

Conversei com Climério Ferreira. Residente atualmente no Distrito Federal, Climério dedica-se hoje à poesia, publicou no ano passado o livro Memorial de mim e está atualmente em processo de criação de dois novos livros.
Em Junho deste ano teve uma de suas parcerias com Domiguinhos, a canção Riso Cristalino, gravada pela cantora paraibana Elba Ramalho. No bate papo com Climério falamos sobre música, poesia e piauiensidade. É o que você confere agora:

No ano passado o senhor lançou um livro de poemas chamado Memorial de mim e teve uma parceria musical com o grande Dominguinhos, a canção Riso Cristalino, gravada pela Elba Ramalho, no disco Balaio do amor. Continua produzindo bastante, mas o restante do histórico trio, seus irmãos Clésio e Clodo, por onde andam? Ainda compondo?

 Climério:  Realmente, parece muito o que fiz (rs). Mas o que aconteceu foi o seguinte: a música Riso Cristalino (minha e de Dominguinhos) é, de certa forma, antiga. Foi gravada originalmente pelo Dominguinhos e virou um cult nordestino, com várias gravações de bandas e cantores ligados ao forró, incluindo Mastruz com Leite. A gravação de Elba é um registro definitivo do sucesso dessa música. Aliás, acho o disco Balaio de Amor, um belo tributo à criatividade dos compositores da nossa região. Quanto a Clodo, Climério, Clésio não há mais. Na verdade, a gente nunca foi um trio. Na contracapa do São Piauí – nosso primeiro disco, e que não é uma santificação do estado (como alguns jornais deram a entender na época) mas uma mistura de São Paulo e Piauí, como está claro na música do mesmo nome – Ednardo escreveu: “São três mas não é um trio”. De nós, o Clodo deu início à sua carreira solo, já tendo gravado três cds (Clodo Ferreira/Gravuras/Clodo Ferreira interpreta Sinhô), fazendo shows, e fazendo parcerias com Fagner, Carlinhos 7 Cordas, Evaldo Gouveia, Manassés, Nonato Luiz, Aurélio Melo e muitos outros.

Eu, de minha parte, voltei-me para a produção de letras e a publicação de pequenos livros de poesia. Meus atuais parceiros são Dominguinhos, Clodo, Ednardo, Naeno, Geraldo Brito, Aloísio Brandão, Celso Adolfo, Passoca, Bê, Waldonys , Silvério Pessoa. Os livros mais recentes que publiquei: Artesanato Existencial, Pretéritas Canções, Memorial de Mim; e atualmente estou trabalhando em dois livros inéditos: poesiadequinta.com e Poética Candanga. Ufa! Meu poeta Vivaldo, acho que estou falando demais!

Nos anos 70, vocês iniciaram uma produtiva parceria com o chamado “grupo dos cearenses” do qual faziam parte Fagner, Fausto Nilo, Ednardo, dentre outros. Posteriormente vocês vieram a ter canções gravadas também por artistas do Rio de Janeiro como Tim Maia, Nara Leão e Os Cariocas. Como foi que se deu todo esse processo de intercambio Piauí-Ceará-Rio-Brasil?

Climério: Quanto à nossa convivência artística com os cearenses (Ednardo, Fagner, Rodger, Fausto Nilo, Petrúcio Maia, Vicente Lopes, Brandão e outros do movimento deles) já deu até tese de mestrado. O historiador Magno Córdova, de Minas Gerais, na sua tese Rompendo As Entranhas do Chão:cidade e identidade de migrantes do Ceará e do Piauí, para a Universidade de Brasília, tenta compreender essa união que tanto o encantou na juventude. Nara Leão, na época da gravação do seu Romance Popular, ouviu a minha gravação de Por um triz (Clodo/Climério/Clésio) e resolveu incluí-la no disco. Veio à Brasília, ouviu mais músicas da gente e ficou amiga. Trocamos muitas idéias de projetos futuros, que a morte dela interrompeu. Mas resultou numa composição dela, Fagner e Fausto Nilo em nossa homenagem, Cli-Clê-Clô, uma das raras composições gravadas de Nara, e que também entrou no Romance Popular. Já o Tim Maia e Os Cariocas, foi uma escolha de Tim pro disco deles – e é uma parceria minha com o Dominguinhos. É um tanto estranho que poucos piauienses saibam que canções nacionalmente consagradas como Revelação, Cebola cortada e Conflito tenham a assinatura de compositores piauienses.

 O senhor acha que isso se deve à desvalorização do artista piauiense ou a desvalorização do compositor, de um modo geral, que acaba sendo “ofuscado” pelo interprete?

Climério: Eu não estranho tanto assim, Vivaldo. Tal desconhecimento é geral, faz parte já de uma cultura do sistema de mercado no qual a música está inserida. As rádios não dizem os nomes dos autores, as pessoas não têm o costume de ler a ficha técnica dos discos, os intérpretes omitem os autores ou os jornalistas não anotam estas partes das informações dos intérpretes. De modo que essa desinformação, no caso dos piauienses, deve ser corrigida. O nosso estado já é desprestigiado demais pelos outros para ser também por nós, eu acho. Temos de levantar o nosso nariz, estufar o peito e nos orgulhar do que temos. Na verdade, o que temos é exatamente igual ao que os outros têm. Às vezes até melhor.

O Nordeste possui uma musicalidade muito rica e ao longo de décadas tem revelado grandes ícones da música brasileira como Zeca Baleiro (Maranhão), Djavan (Alagoas), Chico Cesár ( Paraíba), Chico Science (Pernambuco) em gerações passadas Gil e Caetano ( Bahia), Fagner e Belchior (Ceará), dentre outros. A que se deve a ausência de um grande representante da música piauienses no cenário nacional?

Há grandes representantes piauienses na MPB: Torquato Neto, Renato Piau, Naeno e, modéstia às favas, nós. E mais alguns que o Brasil não conhece, como por exemplo: Cruz Neto, Ensaio Vocal, Erisvaldo Borges, Gonzaga Lú, Geraldo Brito, Wilker Marques, Edvaldo Nascimento, Vavá Ribeiro, Bandolins de Oeiras, O forró do Candeeiro, Luis Santos, Márcio Menezes, Di Bahian, Patrícia Mellodi, João Cláudio Moreno, Levi Moura, Magno Aurélio, Peinha do Cavaco, Assis Batista, Julio Medeiros e o pessoal do samba: Edmar Sônia, Corrinho, Paulo Ferreira, Messias, Jaime Martins, João Violão, Rosinha Amorim, Manoel Fininho e muitos outros, pois é difícil ter todo mundo de memória, e muitos outros de quem não tive ainda conhecimento. Pergunte ao Joca Oeiras, que sabe mais do que eu desse assunto (rs). Talvez uma das fontes dessa ausência em nosso próprio descaso. José Saramago afirmou recentemente que “a geração atual tem uma tendência ao monossílabo”, em outros termos, nossa linguagem está cada vez mais minimalista. O fato de a poesia contemporânea tender a ter poucos e versos , geralmente numa única estrofe, pode ser um indicio de que a poesia no século XXI ruma pra uma estrutura mais sintética? Há uma tendência monossilábica provavelmente em virtude da vida apressada que atualmente se leva. Além disso, o telefone celular, a tv, a internet e o desenvolvimento imprevisível das novas mídias retirem de nós a calma necessária para a assimilação de textos longos. A coisa toda vai ficando meio telegráfica. A gente não tem muito tempo para poemas intermináveis, talvez. Eu gosto muito de escrever meus versos, mas eu não sou muito equipado teoricamente para interpretar estes fenômenos. O que sei é do que gosto. Eu, pessoalmente, adoro poemas mais curtos. Como anda sendo tratada a questão dos direitos autorais no país, especialmente no seu caso? Eu não tenho muitos elementos para afirmar que melhorou. Mas sinto, no meu caso particular, que me remuneram melhor que antes. Ou, como dizem os que entendem, sou menos roubado (rs).

O senhor vivenciou um momento muito produtivo da música brasileira, os anos 70. 30 anos depois, o que ficou de legado daquela geração e como o senhor enxerga o cenário atual da música brasileira?

 Climério: No momento, sinto que a visão mais comercial da nossa música venceu a luta da divulgação no rádio, na tv e a nossa amada mpb busca guarida na internet, que é um nicho ainda nebuloso para todos nós. Eu, com Clodo e Clésio, participei da maravilhosa experiência do selo Epic da CBS. Aquilo foi um celeiro de talentos, uma explosão quase silenciosa da expressão da nossa música. Sou bastante otimista. Creio que a boa música, a boa letra, a boa poesia terá sempre o seu lugar no coração de algumas pessoas como nós. E ultimamente tenho alimentado a crença de que o contingente dessas pessoas vem aumentando consideravelmente. Vejo isso claramente no interesse manifestado pelas novas gerações, pela curiosidade solidária que elas demonstram em tudo que se relaciona à essa época. O próprio fervilhar cultural de Oeiras é avalista dessa crença. Pergunte ao Joca. Meu caro, muitíssimo obrigado. Tenho ouvido bastante “São Piauí”, A música que abre o disco muito me agrada. É curioso que ela me lembra as coisas do Movimento Mangue Beat, que foi criado duas decadas depois. Adoro Conflito e Nudez também. Consegui os discos “Chapada do Corisco” e “Ferreira”, mas ainda não tive tempo de ouvi-los com a devida atenção. Curioso como as coisas ocorrem: de uma revista de rock usada, comprada numa banquinha revistas velhas em Teresina, acabei tomando conhecimento da origem dos autores de Revelação e de lá pra cá tanta coisa se deu.

Fico feliz em poder ajudar a remediar essa “amnésia nacional”. A gente realmente precisa conhecer melhor os valores da nossa terrinha. Além do mais, o contato com um grande poeta e compositor como você só me traz engrandecimento. Um grande abraço.

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é disco que eu gosto

Onde brilhem os olhos seus, o cd de Fernanda Takai, veio no rastro dos meus desejos. Eu ansiava há muito tempo que alguém que tivesse uma postura forte e clara na música brasileira retomasse esse bastão que Nara Leão empunhou durante sua curta vida. Imaginava que a simples leitura do repertório bastaria. Quando tomei conhecimento do projeto dela, ainda bastante embrionário, fiquei achando que seria isso. Depois da coisa pronta vi que o resultado ficou melhor do que imaginara. Os arranjos de John Ulhoa produziram, na verdade, uma releitura das canções, trazendo para os ouvidos e para os sentimentos das novas gerações as alegrias e emoções que, anos atrás, elas me proporcionaram. O canto de Fernanda é digno da musa que homenageia, acaricia as melodias, valoriza as letras e incita o ouvinte a partilhar o prazer que ela sente ao cantar.

Quando os críticos de arte paulistas escolheram este cd como o melhor do ano, vi que eu não estava só neste gostar.

(Climério Ferreira)

Miragem

MIRAGEM 

 

O céu refletido na água
Com seus peixes e astros
Atrai o vôo e o mergulho


É como um pouco de mágoa
Que vai engolindo os mastros
Do barco do nosso orgulho

 

 

 (Climério Ferreira)

CANÇÃO DE DESPERTAR

CANÇÃO DE DESPERTAR

 

O som de uma canção
Crava sua clave de sol
No deserto do meu peito

Reacendendo a paixão
Que dorme sob o lençol
Qual macambira no eito

 (Climério Ferreira)

Três vezes Ceumar

 

É impossível falar de Ceumar sem situá-la no centro de uma onda de novas vozes femininas responsáveis pela continuidade da beleza, da força e do talento da música popular brasileira.

 

uma vez

 

Desde que ouvi o seu primeiro cd, “dindinha”, produzido com enorme sensibilidade por Zeca Baleiro, pude constatar de cara tratar-se  de um timbre necessário à expressão estética de um canto novo. O passeio que ela fez de Zeca a Itamar Assumpção, passando por Zé Ramalho, Sinhô, Chico César, Luiz Gonzaga, Josias

Sobrinho até a reconstrução de Dunford/Thatcher, de Let It Grow (na qual o seu vio-lão mostra-se de uma expressividade incomum) – e tudo isso num primeiro trabalho, por si só, já dá conta da ousadia da moça.

 

duas vezes

 

Se o primeiro foi assim, o segundo não menos: “sempre viva”, de certa forma confirma os caminhos de “dindinha” e aponta em direção ao terceiro, “achou” .
Além de trazer uma amostra da união musical de Fagner e Zeca Baleiro, em”Outra Era”, a compositora Ceumar começa a mostrar suas garras musicais em  “Avesso”, uma parceria com Alice Ruiz e Boca da Noite, sua com Chico César e Tata Fernandes.  A produção desde cd é da própria Ceumar. Há já  em “sempre viva” o início de um namoro com a modernidade paulista (“O Seu Olhar” – Paulo Tatit/Arnaldo Antunes) que, na minha opinião, ficará mais firme no terceiro cd, “achou”.

 

três vezes

 

achou”, disco que divide com o compositor Dante Ozzetti, repleto de belas, sofisticadas e fortes melodias, parcerias dele com Luiz Tatit, Zeca Baleiro, Zélia Ducan e Kléber Albuquerque é o terceiro de Ceumar .A música título, “achou”, de Dante  e Luiz Tatit, ganhou o segundo lugar no Festival da TvCultura, na voz dela.
O caminho musical de Ceumar começa a se expandir, percorrendo o país, dividindo espetáculos com outros artistas e soltando sua (bela) voz no exterior. O trabalho musical dessa moça merece a nossa atenta audição.

 

ps. como ninguém é perfeito, ceumar ainda não fez nem gravou uma parceria minha e dela (risos).

um poema

SONHO DE CONSUMO

Quando o supermercado

Vender sentimentos

Vou querer comprar de volta

Certos momentos

 

Climério Ferreira

 

Ednardo canta Flora

Flora
De Ednardo, Dominguinhos e Climério

Se eu pudesse pensar em ti
Sem vontade de querer chorar
Sem pensar em querer morrer
Nem pensar em querer voltar
Essa dor que eu sinto agora
É uma dor que não tem nome
Que o meu peito devora e come
E fere e maltrata, sem matar
No roçado do meu coração
Há um tempo de plantar saudade
Há um tempo de colher lembrança
Pra depois com o tempo chorar
Ô Flora, meu sertão florindo
Aflora o meu peito só
Teu amor é um fogo, é um fogo
É um fogo, é um fogo
Dos teus olhos tição

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