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A janela da poesia

por Bráulio Tavares

 

1973_janelas
tela-criação de Maluda

 

 

Ferreira Gullar tem uma definição irretocável para uma das grandes angústias na vida de um poeta. Diz ele: “O grande problema do poeta é convencer a mulher de que, quando está debruçado na janela, fumando, olhando lá pra fora, ele está trabalhando”. E não é mesmo? A mulher de um cara como esse não precisa ser fã de Chico Buarque para cantarolar “Vai trabalhar, vagabundo” enquanto espana os móveis. Homem debruçado na janela só pode estar espiando os decotes que passam. E eu vos direi, no entanto, que é em momentos como esse que brotam as grandes idéias os grandes versos, as grandes inspirações.

O trabalho criativo é imprevisível. Maiakóvski, no seu essencial livrinho Como fazer versos, afirma, justificando seu hábito de anotar todas as idéias que lhe vêm à mente: “Gasto todo o meu tempo com estas preparações. Passo assim 10 a 18 horas por dia e estou quase sempre murmurando algo. É com essa concentração que se explica a famigerada distração dos poetas. O trabalho com estas preparações vai acompanhado em mim de semelhante tensão que em noventa por centro dos casos sei até o lugar em que, no decorrer de quinze anos de trabalho, vieram-me e receberam sua forma definitiva tais ou quais rimas, aliterações, imagens, etc.”

É exatamente assim que sucede comigo, e com muitos outros, tenho certeza. Comparando com o mundo informático, eu diria que a poesia é uma janela do Windows que nunca se desliga; fica minimizada num cantinho da mente, mas pronta para ser aberta, e o trabalho retomado, ao menor estímulo. Mesmo quando estamos conversando, trabalhando noutra coisa, comendo, namorando, aquela janelinha está ativada e pronta. Daí a famosa frase de Fernando Pessoa: “E quando estou pensando, estou sempre pensando noutra coisa”. A outra coisa é a janela da poesia.

Não devemos achar que o trabalho criativo é puramente mental, porque idéias que não são escritas são arquivos que não são salvos: basta o computador ser desligado (ou seja, uma noite de sono) para que tudo se evapore. Não adianta ter uma idéia genial: é preciso colocá-la no papel, brigar com ela, batalhar, cortar, reescrever, dar polimento, e isto às vezes leva anos. Tem poemas que eu comecei a escrever há mais de vinte anos, ainda não prestam, mas podem prestar um dia. Idéias novas surgem nos momentos mais inesperados. E o poeta (a mente criativa em geral; pode ser também um matemático, um cientista) é como um pára-raios. Tem que estar em alerta permanente, vigília permanente, porque nunca sabe quando os raios vão cair, só sabe que eles acabam caindo. Um poeta debruçado na janela é um pára-raios. Ele está trabalhando, sim, madame. Um pára-raios não trabalha apenas no momento em que recebe uma descarga, assim como um policial não trabalha apenas no momento em que evita um crime, ou um bombeiro não trabalha apenas quando escorrega por aquele poste vertical e entra no caminhão. Um pára-raios trabalha 24 horas por dia, e acha pouco.

Bráulio Tavares é escritor, compositor, estudou cinema na Escola Superior de Cinema da Universidade Católica de Minas Gerais, é Pesquisador de literatura fantástica, compilou a primeira bibliografia do gênero na literatura brasileira, o Fantastic, Fantasy and Science Fiction Literature Catalog (Fundação Biblioteca Nacional, Rio, 1992). Publicou A máquina voadora, em 1994 e A espinha dorsal da memória, em 1996. Tem coluna de cultura diária

no Jornal da Paraíba. É parceiro de Lenine.


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