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REFLEXÕES EXTEMPORÂNEAS DE UM QUASE-CANDANGO

 

…todos os sonhos de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer naufragaram: a cidade que não deveria ter favelas, engarrafamentos, mendigos, violência e outras mazelas que infernizam as grandes cidades brasileiras, tem tudo isso e muito mais.

 

 
 foto Iano Andrade

 por Cineas Santos

Atendendo a convite do mestre M. Paulo Nunes, na semana passada, passei uns três dias em Brasília, exercitando a minha reconhecida e proclamada capacidade de falar sandices. Nisso, modéstia à parte, sou imbatível. Nessa época do ano, Brasília é dos lugares mais áridos do Planeta. É tudo secura e desolação. O pó vermelho transforma a “Capital da Esperança” numa monótona aquarela ferrugem. É certo que dois ou três ipês amarelos, raquíticos e desidratados, brindaram-me com uma frugal ração de beleza. Mas a beleza, já afirmava Stendhal, “é apenas a promessa da felicidade”. Nada além.

      Sozinho num quarto de hotel, comecei a lembrar-me dos versos que abrem Os Signos & as Siglas, o mais triste dos livros de Dobal: “Esta cidade sem poeira de vida/ se fecha. Se prende. Se tranca/ em mil unidades de desespero/ Esta cidade/ desolada isolada/ ilha de poeira morta/ subverte o silêncio/ submerge os soluços”. Não resisti à tentação de agradecer a seu Liberato o fato de ter impedido que eu me tornasse um candango. Explico.

      Em 1958, não caiu uma gota de chuva no sertão do Caracol. No rastro de outros sertanejos, meu pai encarapitou-se num pau-de-arara e rumou para Brasília. Estava muito velho para sair pelo mundo à procura de trabalho. Mas naquele imenso canteiro de obras, nem os inválidos – e não era o caso – ficavam desempregados. Duas semanas depois, meu velho deu notícias: “estou fichado na Pacheco Fernandes”, de triste memória. Na verdade, estava cavando valas para enterrar ilusões. Imediatamente, d. Purcina começou a arrumar os teréns para mudar-se, de mala e cuia, para Brasília. Vislumbrava, na aridez do cerrado, a possibilidade de “educar os filhos”, sua mais constante obsessão e, de quebra, “ganhar um dinheirinho” vendendo de-comer aos cassacos. A velha tinha sonhos, ambições. O que ela não poderia imaginar é que, oito meses depois, seu Liberato, “ouvindo o ronco do trovão”, como a asa branca da canção, voltou para o seu roçado e, de lá, só sairia para o cemitério. Quanto a mim, em vez do cerrado, migrei para a chapada de onde não sairei nem para Pasárgada.

      Se não estou enganado, todos os sonhos de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer naufragaram: a cidade que não deveria ter favelas, engarrafamentos, mendigos, violência e outras mazelas que infernizam as grandes cidades brasileiras, tem tudo isso e muito mais. Em frente ao Ministério da Cultura, para citar apenas um exemplo, um sem-nada “mora” numa brasília velha, rota e enferrujada.

      Confesso que, no segundo dia de minha estada na capital da República, eu estava a um passo do desespero. Náufrago naquela imensa ausência de mar, eu não via a hora de voltar para a aldeia. De repente, como que trazidos por um vento bom, me aparecem: Edmilson Caminha, Ana Maria, Climério Ferreira, Paulo José Cunha, Andrea, Lourdes Lima, Afonso Ligório, Guido Heleno e mais um punhado de amigos queridos. E o que era aridez se fez brandura, acolhimento. Se nada mais tivesse acontecido, reencontrá-los já teria justificado a viagem. Ao despedir-me de Brasília na manhã de sábado, senti (por que não confessar?) uma pontinha de saudade. Impossível não concordar com o prof. Wall Ferraz: “A cidade é o povo”, o mais é paisagem, mesmo que seja a árida paisagem do Planalto Central, onde cintilam as esculturas monumentais de Niemeyer.

 Cineas Santos

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